Mudos de Vida | TodAs EscreVemos

[esse post contém uma poesia, de minha autoria, que foi originalmente publicada no site da convocatória Todas Escrevemos, que publicou textos de 160 mulheres porto-alegrenses.]


Mudos de Vida, 2020

Fernanda Fedrizzi




Passou,

Passou.


Como existir agora?

Hoje a palavra é posologia,

altera a noção de marca, trauma, cicatriz.


A noção do que é tempo

cidade, marca, vida, escrita

passou.


Palavra muda é escrita dita.

Soluço inaudível e inaudito.

Normalizada, palavra vira conteúdo no corpo:

Luto, apatia, saudade.


Como nomear o que é assintomático?

Neologismos para dizer o que ainda não era.


Como chamar a dor causada pela ausência da despedida?

Pretérito imperfeito: Sentíamos, vivíamos, encontrávamos.

A palavra mudou: Solidão não existe mais.

Neutralizado, o sentimento não gera substantivo.


Palavra emudecida: Imprevisto urbano.

Se ao menos soubéssemos dos efeitos colaterais...

Partiu-se a cidade: Sem direito à palavra livre.


Se eu soubesse,

Ah! Se eu soubesse...



[escrevi essa poesia no início do isolamento social enquanto surtava ao tentar lidar com o vírus, uma convivência forçada 24h por dia e uma dissertação para escrever]