Luiza Prates
Pelotas/RS

 
         O que é um lugar?

        Quando a gente entende que o lugar que nos cabe no mundo nem sempre é o lugar que ocupamos, passamos por uma crise geográfica, pois junto disso, percebemos que lugar, muitas
vezes, pouco tem a ver com um espaço. O lugar tem essa característica de ser e não ser, de estar sempre longe, na utopia do horizonte do Galeano, no espaço sideral do Asimov, nas bolinhas da Kusama, nas verdades do Valter Hugo Mãe.

         Por muito tempo passei em busca desse lugar, e descobri que na verdade ele é Lugar Nenhum, e que Lugar Nenhum tem muito mais a ver com o tempo do que com o lugar propriamente dito. A brincadeira se fez morada, e em palavra recebo os amigos e alguns desconhecidos a conhecerem meu lar de saudade, de sonhos e memórias, pois Lugar Nenhum tem a capacidade de não ser de ninguém, mas pertencer a todos que se aventuram por lá. Sou habitante de Lugar Nenhum, mundo que criei ao redor de mim, que é passagem e permanência, por onde os caminhos incertos são as únicas esperanças e certeza há somente quando se compreende que lugar é um cheiro, uma lágrima, um estado de espírito, nada mais e, simultaneamente, muito além disso.

         Não só penso que lugar não é um espaço, como por vezes, o considero o oposto disso: a falta dele, como um abraço que esgana todas as saudades e se torna o aconchego de corpos a vácuo, colados de carinho. E mais do que caracterizar um lugar, é preciso estar ciente de que somos também um lugar, um pequeno lugar móvel, lugar de ser, de estar e de encolher e de espichar. Somos esse baú de lembranças, e sim, o lugar que nosso corpo habita e está, mas também o seu rastro, o seu não estar… o lugar de partida, de ausência e ser também o que já não somos, e também o que nunca seremos. Mas somos o afago que é único, o olhar que lateja nos passados, as paredes que estremecem no frenesi, o chão que pulsa com o trem que passa, o compasso da máquina de costura da avó que já não habita lugar nenhum. Ou justamente habita Lugar Nenhum.

         Lugar Nenhum tem muito disso, lugar curioso, inquietante, indecifrável, palco de pequenas comédias e grandes tragédias, da saudosa rodoviária, dos abutres, a esquina dos desafetos e dos melhores amores. Mas definitivamente, o meu lugar é Lugar Nenhum, que me deu refúgio na fuga, alento e luz, breu quando precisei fechar os olhos e dele traçar caminhos para redesenhar o meu lar de Lugar Nenhum.

         Encontrei o lugar em Lugar Nenhum, mas descobri que nele é tudo em branco, ou ao menos por fazer, e temos de construí-lo à nossa maneira, mesmo em meio às lágrimas, ao devaneio. Ele só surge do carvão, do sangue e do suor, ele nunca será completo, nem mesmo quando partirmos, pois ele se redesenha para os que virão no futuro, assim como eu cheguei ao passado, me apossei de suas ideias e hoje o refaço em morada do meu sonho de viver, minha ânsia de morrer só pra voltar e viver tudo outra vez.

                                                                                                   Luiza Prates dos Santos
                                                                                                   Pelotas, 31 de março de 2022
Uma parte de Lugar Nenhum

Contos de Lugar Nenhum

2022

texto

C E N T E L H A 
 
é uma publicação independente que apresenta a produção e pesquisa como algo que pode incendiar. Profunda como as águas e intensa como fogo, flutua pelo ar e tenta se desprender da terra. É viva. Textos, anotações, ensaios, poesias, sons diversos e uma viagem que leva a lugar algum ou algum lugar. Enjoa. É uma carta de navegação ou uma planta baixa. Um rascunho ou um detalhamento. É ambivalente e contraditória. É bateção e inspiração.
O QUE É UM LUGAR?                                                
O lugar?
O que pode ser um lugar?
E o que não pode?
O que não é um lugar?
Um espaço, um site, um não lugar?
A ausência de um lugar?
Um sem lugar?
Uma utopia?
Não sei o que é.
Nem o que deixa de ser.
Pode ser só uma palavra.
Ou palavras.
Palavras difíceis de tragar.
Palavras que merecem ser tragadas.
Palavras escritas no papel.
Queimáveis.
Incendiárias.
Uma mistura de fogo e ar.
Não há lugar para palavras terrenas.
Cravadas em uma só realidade.
Ou atiradas ao mar.
Não sei onde cabe um lugar.
Só sei que está aqui.