Daniel Fernandes
Porto Alegre/RS

 
notas e tateios para uma aracnarqueologia dos lugares

20

2022

texto [nota ensaística]

            Considere uma aranha no exercício de tecer uma teia. Seu corpo metaboliza proteínas, converte esse material e o tece em fibras (dependendo da circunstância, fibras com propriedades variadas para usos variados) e as arranja no espaço, em um movimento de mover-se e criar conexões entre pontos e linhas. Um desenho se forma, um espaço se preenche, e nesse jogo certas funcionalidades são ativadas. Esse processo, incluindo corpo, metabolismo, atividade cuidadosa, movimento e ocupação do espaço, bem como de criação de conexões e desenhos, organiza um espaço e cria possibilidades nele. É, também, um ato custoso, em termos de tempo, energia e recursos. Não é incomum que aranhas renovem suas teias de tempos em tempos, devorando as fibras anteriormente produzidas quando estas perdem seu potencial de aderência, recuperando e reciclando recursos em uma atividade que precisa se produzir constantemente para manter suas funcionalidades e potencialidades. É um jogo de trabalho constante que mantém a possibilidade de criar conexões e apreender algo.
            Uma teia não é apenas um instrumento de captura e mobilidade. É também um órgão sensorial. Vibrações se transmitem através dela e comunicam a sua tecelã que algo está preso. Talvez não seja absurdo dizermos que é um órgão comunicante: ainda que, do ponto de vista da presa capturada, talvez a comunicação não seja desejada (mas nem toda comunicação que efetivamente acontece é intencionada ou desejada). Há mesmo quem diga que uma teia não apenas transmite sensações e comunicados, mas processa a informação dessas vibrações. A teia é um universo sensível e informacional que nasce do trabalho do aranha, mas não se finda ou se limita na aranha.
            Um lugar talvez seja como uma teia de aranha. Um agregado produzido pelas interações entre corpos, movimentos, recursos, tempos e conexões. Uma organização que pode conectar e aderir, e que precisa ser constantemente retrabalhada para manter essas potencialidades. Um universo sensível, comunicante, e que processa informações. Tecido tramado de modo complexo, compreendendo funcionalidades intencionadas, mas também inauditas. Um jogo em constante trabalho que mantém, quando cuidado, a possibilidade de criar conexões e apreender algo.
            É dito que nem toda aranha produz teias, mas que toda aranha produz seda. E a seda, para ser produzida, tem de ser fiada.. Talvez seja mais uma questão de nomenclatura e classificação das formas e estruturas que se fiam, cuja confusão pode informar de nossas próprias percepções acerca da funcionalidade e desenho que são reconhecíveis como uma teia ou um lugar. Prefiro simplificar e considerar que toda aranha tece, e dizer que o objeto da tessitura é uma teia, mesmo que isso não seja preciso. Mas tal imprecisão é precisa para um novo salto nesse tecido argumentativo, para que uma conexão mais se faça. Talvez o que faça a aranha seja também sua teia, seja esse fazer e habitar que se organize em ato e dança nas tramas que compõem um espaço tecido, fiado, um lugar.
            E, talvez, sejam os lugares que nos componham e nos teçam.
 
 
 
Daniel Rodrigues Fernandes
psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia Social e Institucional (UFRGS)
e produtor de conversa fiada
C E N T E L H A 
 
é uma publicação independente que apresenta a produção e pesquisa como algo que pode incendiar. Profunda como as águas e intensa como fogo, flutua pelo ar e tenta se desprender da terra. É viva. Textos, anotações, ensaios, poesias, sons diversos e uma viagem que leva a lugar algum ou algum lugar. Enjoa. É uma carta de navegação ou uma planta baixa. Um rascunho ou um detalhamento. É ambivalente e contraditória. É bateção e inspiração.
O QUE É UM LUGAR?                                                
O lugar?
O que pode ser um lugar?
E o que não pode?
O que não é um lugar?
Um espaço, um site, um não lugar?
A ausência de um lugar?
Um sem lugar?
Uma utopia?
Não sei o que é.
Nem o que deixa de ser.
Pode ser só uma palavra.
Ou palavras.
Palavras difíceis de tragar.
Palavras que merecem ser tragadas.
Palavras escritas no papel.
Queimáveis.
Incendiárias.
Uma mistura de fogo e ar.
Não há lugar para palavras terrenas.
Cravadas em uma só realidade.
Ou atiradas ao mar.
Não sei onde cabe um lugar.
Só sei que está aqui.