Fercho Marquéz-Elul
Porto Alegre/RS

 
I

Incrustada na esquina, a ribanceira do bairro, proa de barco arquitetônica que desenvolve uma ruína. O teto desabou em sótão, as paredes se descascaram em lâminas empoeiradas, a escadaria que faz conversar o térreo com o andar, abandonada, muda e disfuncional força o céu azul querer descer ao chão. A caixa das histórias e de abrigos se informa em arestas que entortam descolando-se uma das outras. O espaço vai florindo uma flor cuja planta fora alimentada pelo esquecimento. Por ora, ela me retoma dois pensamentos que se bifurcam no meio do caminho: a tragédia que se instala quando as sacadas protuberantes resistem sem atenção e qualquer ideia que a ruína me fez esquecer.
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II

A depender da época do ano, o sol ao fim do dia desce, dispondo exatamente de frente para a rua onde convivem eu e um pontilhão. Sua luz ilumina toda a longa extensão da rua, exceto a parte inferior do viaduto. Em cima, o ritmo incessante de carros carrega a pressa de carregar pessoas transformadas em tempo. Embaixo, no pequeno paço que sua construção compassou, pessoas impostamente aferidas em espaço são os habitantes dali, apesar de baixo de ponte não ser habitat de ninguém, exceto das sombras. Ali eles vivem, despidos pelo assombro que o cotidiano da vida naturaliza quando aceitamos assinar, em concordância à realidade, seu contrato de aceite. Eles, ali, são transformados em uma massa famílica, ágrafos em sentimentos, com a única função de ocupar os cantos, como se fossem a cara metade dos lugares mais baixos, dos cantos mais anfractuosos de toda arquitetura hostil.
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Valdir Dutra da Silva
Decretos (para a cidade)
28 de abril de 2018
Placas inscritas entre a avenida Alberto Bins & Rua da Conceição
Bairro Independência, Porto Alegre – RS.
III

Em toda cidade, o ímpeto da ganância construtiva impede a permanência de lugares vazios – uma necessidade vital para a vida urbana. Ao mesmo tempo, o próprio motor de esqueletos de concreto, empilhados outros sobre uns, disfarçados de gramática estilosa, produz descontroladamente esses mesmos espaços esvaziados. Estacionamentos são essas arquiteturas que pecam pela falta, que se constroem em um só bloco invisível, no qual somente os carros têm vez. No centro do bairro há essa estrutura vazia, fortemente armada de ar, de céu, onde o que rareia em elementos, instaura justamente um edifício invisível aéreo cujo topo ou pico mais alto desse arranha-céu particular termina, justamente na superfície do chão. Estacionamentos são, no fim, arranha-chãos e isso é tão claro para mim. 
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Notas sobre a Independência: ruínas

20

2022

fotografia digital e texto

C E N T E L H A 
 
é uma publicação independente que apresenta a produção e pesquisa como algo que pode incendiar. Profunda como as águas e intensa como fogo, flutua pelo ar e tenta se desprender da terra. É viva. Textos, anotações, ensaios, poesias, sons diversos e uma viagem que leva a lugar algum ou algum lugar. Enjoa. É uma carta de navegação ou uma planta baixa. Um rascunho ou um detalhamento. É ambivalente e contraditória. É bateção e inspiração.
O QUE É UM LUGAR?                                                
O lugar?
O que pode ser um lugar?
E o que não pode?
O que não é um lugar?
Um espaço, um site, um não lugar?
A ausência de um lugar?
Um sem lugar?
Uma utopia?
Não sei o que é.
Nem o que deixa de ser.
Pode ser só uma palavra.
Ou palavras.
Palavras difíceis de tragar.
Palavras que merecem ser tragadas.
Palavras escritas no papel.
Queimáveis.
Incendiárias.
Uma mistura de fogo e ar.
Não há lugar para palavras terrenas.
Cravadas em uma só realidade.
Ou atiradas ao mar.
Não sei onde cabe um lugar.
Só sei que está aqui.