O BESTIÁRIO DA LADEIRA
Fernanda Fedrizzi

2017

Este é um compêndio de histórias das primeiras aparições das criaturas que habitam a ladeira da Rua General Câmara, em Porto Alegre (RS), e suas relações com o mundo humano. A intenção é que, por meio dos fichamentos e narrativas, as pessoas conheçam as criaturas que ali vivem e entendam como superar as situações desagradáveis que podem ocorrer durante um percurso caminhado.

As narrativas contam as histórias das primeiras aparições, registros ou relatos das criaturas e sua relação com o mundo humano. são parte do compartilhamento dos meus estudos e análises sobre os seres, suas histórias e as relações com seus invocadores - aqueles que tiveram as experiências emocionais negativas. O objetivo das narrativas é permitir com que outras pessoas visualizem meios de superar situações desagradáveis que podem ser ou foram vividas nos espaços públicos.

HONORATUS

número de registro:
#voz001a;

criatura do tipo:
mágica;

alvo predileto:
homens idosos e acomodados;

motivação da aparição:
insegurança e amargura;

invocado por:
ausência ou excesso de fé;

frequência de aparecimento: 
baixa;

natureza comportamental:
desagradável e pacifico;

probabilidade de sucesso na fuga:
não há;

método de banimento ou retardação:
visualizar uma igreja, não fazer contato visual com a criatura;

palavrório de invocação:
policiamento, preocupação, igreja, política, incomodo, omissão, impostos;

habilidades:
murmúrio chuvoso e olhar paralisante;

“Dizem que Honoratus apareceu pela primeira vez quando um senhor - de aproximadamente 65 anos, grisalho e com jeito de poucos amigos - caminhava pelas calçadas estreitas do centro de Porto Alegre em busca de um local para consertar um relógio que havia recebido como herança do, há muito tempo falecido, avô. O homem escolheu uma joalheria que possibilitava com que vislumbrasse a torre da antiga catedral enquanto aguardava a avaliação da dona do estabelecimento. Perdido em seus reclames sobre a situação política da cidade e sobre o aumento do número de assaltos, nem notou que olhava mais para seus pés do que para a catedral. Foi então, no instante em que pensava como seu reduto moral e de fé andava omisso sobre as questões sociais atuais, que sentiu um incomodo em seu peito e pensou que deveria olhar para frente. Fez contato visual. Ali estava Honoratus. Magro, barrigudo, nariz muito pontudo caindo por cima da boca triste e flácida. As roupas eram elegantes, como nos bons anos de ouro na Rua dos Andradas, mas as luvas estavam com as pontas rasgadas e ele necessitava de um guarda-chuva velho como apoio para andar. Estava usando um chinelo um tanto velho e as calças estavam dobradas, como se ele andasse em uma enchente invisível. A sua volta era noite e chovia, mesmo com o sol brilhando. Os cabelos eram ralos, mas muito compridos, tanto quanto as unhas, e respirava com exaustão. Honoratus apenas manteve contato visual com o senhor proprietário daquele relógio que parecia tão deficiente quanto a própria criatura. Nada fez. Não moveu um músculo. Apenas piscava enquanto a chuva e a noite se espalhavam e encobriam o sol. O senhor, inerte, não percebeu que o cenário se modificava, mas as pessoas ao seu redor - incluindo a dona da joalheria - se afastavam. O reconhecimento dos amargores do senhor e de Honoratus durou até que alguém cutucou o velho: ‘ei, acho que vem vindo um temporal, está ficando noite as duas da tarde’. O idoso olhou para cima, para a lomba, e viu a torre da catedral. Buscou, em volta, a criatura que o observava. Não havia mais nada ali. O relógio, parado, estava em seu bolso.”